Não vim contar um caso. Também não é uma poesia a mais, dessas que poucos gostam. É a hora da chamada. Quando noite e dia se confundem. Não é dia, nem noite, ainda.

Pois é nessa hora sombria que começam a chegar idéias, nem sempre alegres, nem sempre tristes. Coisas. De que é feito a vida, senão de coisas? Mas há tanta coisa nos noticiários! Quando digo noticiários, falo de todos. Dos jornais, das conversas que escuto, das observações. E quanto mais observo, mais me calo.

Calada como a hora do Angelus, no seu horário de verdade, não nessa de ponteiros adiantados. Naquela, quando o ar é triste. Mudo, às vezes. Mesmo que carros buzinem, que cães latam, há um vácuo no tempo. Um vazio. Já experimentei isso em viagens. Talvez esteja dentro de mim esse sentimento. Não sei.

Impossível, hoje, não pensar em homens traidores da fé humana. Como entender o desvario de Abadiânia? Uma cidade movida pela crença em curas da alma e do corpo.

Impossível não entrar, em pensamento, naquela Catedral de Campinas e contar os mortos.

Impossível não pensar nas pessoas solitárias, neste fim de ano, como em outros tantos fins de dezembros.

Impossível não pensar na miséria dos que passarão os dias -ditos de festas-, sem nada ou quase para comer.

Impossível não pensar na estupidez humana, no caso do menino de seis anos agredido no jogo de futebol.

Impossível não pensar nas salas de espera de hospitais sem médicos para atender a todos os doentes. Sem equipamentos para amenizar a dor de todos os pacientes.

Impossível não pensar que mais um ano virá e pouca coisa ficará diferente. Mazelas novas e velhas. Tantas.

Coisas, portanto, essas mesmas que o tempo não ajuda a melhorar.

A noite é outra coisa escura.

gracia cantanhede

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DIÁTESE

Procurei, no livro de advinhações, resposta para o meu momento de pânico. Atravesso fase de acontecimentos bizarros, como se uma serpente sibilasse na minha frente e eu precisasse de uma caravela indicando grandes mudanças a caminho.

Qualquer coisa com ventos na velas claras trazendo dias abastados, e não o que me sugere um eclipse nessa caminhada. Qualquer coisa dizendo, olhe, do fogo incendiário chegará nova vida, está bem perto o que eu não soubeste ver, raios de ouro banhará tua estrada, aguarde com paciência, não é bom precipitar.
Há três punhais no caminho, um fala em tristeza, outro em morte e o terceiro te defende, trazendo estabilidade.

Nas minhas mãos a cigana viu alguém que me faz sofrer, trazendo decepção, e já foram tantas, plumas voando ao léu, palavras ditas ao vento, lobo rondando, fingindo ser gente.

Na mesma linha advinhou um sonho alucinado, vestido de fantasia.

O horóscopo me avisa, hoje: a concha ainda fechada, aguarde a vitória certa, cuide do equilíbrio, para encontrar a saída, a vida é uma fonte trazendo renascimento.

No sonho vi imagens loucas, perdidas, e meus pés não pousavam no chão, um anjo mau à espreita, uma jaula com a porta aberta e outra jaula cheia de moedas de ouro . Alguém gritando, cuidado com a vaidade, pavão não é bom palpite, fuja de gente fingindo ter outro rosto, alguém bem egoista, escondeu o teu tesouro, naquilo que te aflige, tenha mais maturidade.

A esfinge não responde diretamente a questão, ave escura é fingimento de alguém que não te quer bem.

Ao perguntar à vidente, por uns trocados a mais, essa enigmática questão, ela me respondeu: Não percas a realeza, tua estrada é soberana, acredite no tridente de Netuno, haja com sabedoria, para atrair coisas boas.

Há dias de incerteza, dias de luz e clarão, há pessoas que me dizem: tenha força e otimismo, palavras mal repetidas podem trazer desenganos, chorar faz parte da vida, haverá um bom final.

Se eu disser ao astrólogo sobre o cometa que vi, rasgando o espaço aberto, ele certamente rirá do meu medo de morrer, mal sabendo que meu medo é dessa vida, do tempo que ainda resta.

Viver, sim, é perigoso, morrer é destino certo.

gracia cantanhede

O GRANDE CIRCO MÍSTICO

Fui apresentada a Jorge de Lima quando li seu “Acendedor de Lampiões”. Os versos parnasianos e depois o modernismo do autor foram um marco nas minhas leituras. O poeta alagoano passou a fazer companhia a outros tantos autores das minhas estantes. De vez em quando releio, com o mesmo entusiasmo, “Essa Nega Fulô” e “Túnica Inconsútil”. Os títulos indicam a originalidade da obra, considerando a época. Para chegar a entender o poema “O Grande Circo Místico” não precisei de muito tempo, mas de muita atenção. Uma história de Jorge de Lima. Verdade e ficão, mas arte, mística, de uma família. Os Knieps existriram, de fato, eram donos de circo e originários da Europa Central. Um espanto e um encantamento, no desempenho amoroso e sensual da família Knieps. Eis a poesia desse mágico autor:

O Grande Circo Místico

O médico de câmara da imperatriz Teresa – Frederico Knieps –
resolveu que seu filho também fosse médico,
mas o rapaz fazendo relações com a equilibrista Agnes,
com ela se casou, fundando a dinastia de circo Knieps
de que tanto se tem ocupado a imprensa.
Charlote, filha de Frederico, se casou com o clown,
de que nasceram Marie e Oto.
E Oto se casou com Lily Braun a grande deslocadora
que tinha no ventre um santo tatuado.
A filha de Lily Braun – a tatuada no ventre
quis entrar para um convento,
mas Oto Frederico Knieps não atendeu,
e Margarete continuou a dinastia do circo
de que tanto se tem ocupado a imprensa.
Então, Margarete tatuou o corpo
sofrendo muito por amor de Deus,
pois gravou em sua pele rósea
a Via-Sacra do Senhor dos Passos.
E nenhum tigre a ofendeu jamais;
e o leão Nero que já havia comido dois ventríloquos,
quando ela entrava nua pela jaula adentro,
chorava como um recém-nascido.
Seu esposo – o trapezista Ludwig – nunca mais a pôde amar,
pois as gravuras sagradas afastavam
a pele dela o desejo dele.
Então, o boxeur Rudolf que era ateu
e era homem fera derrubou Margarete e a violou.
Quando acabou, o ateu se converteu, morreu.
Margarete pariu duas meninas que são o prodígio do Grande Circo Knieps.
Mas o maior milagre são as suas virgindades
em que os banqueiros e os homens de monóculo têm esbarrado;
são as suas levitações que a platéia pensa ser truque;
é a sua pureza em que ninguém acredita;
são as suas mágicas que os simples dizem que há o diabo;
mas as crianças crêem nelas, são seus fiéis, seus amigos, seus devotos.
Marie e Helene se apresentam nuas,
dançam no arame e deslocam de tal forma os membros
que parece que os membros não são delas.
A platéia bisa coxas, bisa seios, bisa sovacos.
Marie e Helene se repartem todas,
se distribuem pelos homens cínicos,
mas ninguém vê as almas que elas conservam puras.
E quando atiram os membros para a visão dos homens,
atiram a alma para a visão de Deus.
Com a verdadeira história do grande circo Knieps
muito pouco se tem ocupado a imprensa.

Jorge de Lima

FÉ E FORÇA

De tantas miudezas é feito o dia
e tecem inquietudes constantes
O hoje, de reveses e de lutas sobrevive
mas o homem com a força e a fé se alia.

Das malhas que fazem o destino
em tudo há o mal do desgaste
O impecilho que a nós se apresenta
deve ser encarado com fé e ânimo
da coragem que a tudo enfrenta.

graciacantanhede

*****
Desconfie de quem tem muita necessidade de afirmar algo.
***********

Tempos absurdos. O desencanto durará anos tantos? Haverá escape? Quando?

***********

Hoje, ao experimentar não fazer nada, tive o maior cansaço da minha vida.

***

A História com final feliz

Arthur, um lindo garoto, estava angustiado com a situação do gatinho. Sua mãe postou nas redes sociais um apelo aos amigos para conseguir arrumar um lar para o pobrezinho, de dois meses, aque apareceu em sua casa, no ParkWay.
A família tem dois cães e, por duas vezes eles investiram contra o filhote de gato. Nesses duas ocasiões, o filhote quase foi morto, não fosse a presença de minha amiga Raquel.
Pois Arthur, o menino bondoso, agora mesmo, perdeu um dentinho de leite.
Sabedor de que a fada dos dentes atende pedidos de meninos bons, fez o apelo: Que ela ajudasse o gatinho a ir para um lar amoroso.
O telefone tocou. Um casal interessado em dar um lar ao pequeno felino disse que iria buscá-lo, naquela hora.
Foi quando eu entrei em contato e, sem saber que já haviam interessados no filhotinho, me prontifiquei a ficar com ele até que fosse adotado.
Olhem só, disse Arthur: A fada do dente existe mesmo!

Existe, sim, Arthur, pessoas de alma generosa que são fadas. Sua mãe é uma delas, uma fada iluminda.

MARTHA MEDEIROS (Quando quiserem escrever para ela)

Martha Medeiros
Qua 05/12/2018, 14:05
GRACIA, gracias!! (imagino quantas vezes você já escutou esse trocadilho)

Muito lindo seu e-mail.

Beijo carinhoso,

Martha

De: Gracia Baldoni [mailto:gracia2010@hotmail.com]
Enviada em: quarta-feira, 5 de dezembro de 2018 11:01
Para: marthamedeiros@terra.com.br
Assunto: Agradecimento: Outra pessoa em casa.

Outras pessoas em casa, diria. Você também está sempre presente em minha sala. Inspiradora, companhia de anos, tantos. Obrigada.

Abraço da

Gracia Cantanhede

EM NOITE DE CHUVA

Chove. Da janela com o vidro embaçado, vejo a grama, lá fora. Um tapete verde, mesa de bilhar.
Tirando o sossego que pudesse me deixar escrevendo em paz, uma gatinha roça meus pés. Não penso em política. Resolvi abolir esse assunto indigesto. Preciso ouvir música, mais música e menos gente. Se houve uma mágica pós internet é a campainha do telefone silenciosa.
A vida é feita de frutas. Bananas e maçãs para substituir a podridão da carne. Aleluia! Uvas são reminiscências romanas. Uma porção de amêndoas. Amendoins são cancerígenos? Dane-se.
Alguém me diz algo importante sobre o romantismo. Tão importante que não me lembro mais o que era. Minha fase de remoer ideias alheias passou dos limites. Penso no ser humano sempre com piedosa compreensão. Todos carentes, impotentes. Não, não, não, não é essa impotência que passa pela cabeça dos mais velhos. É impotência de reagir mal a qualquer palavra, a qualquer novidade mais avançada. Todo conservadorismo é bem-vindo, agora. Toda miséria humana é exposta na galeria dos nossos shoppings. É preciso ser forte. Propagam o fim do vitimismo. Quero saber onde vão esconder a pobreza absoluta que está aí. Em que armário vai caber a consciência do cidadão liberal. Na ausência de culpa, não há necessidade de arroubos. Calem-se todos, A chuva poderia lavar todo mal do mundo. Convoco as mulheres para um mutirão de paz. Só as mulheres.
Penso que cheguei tarde no mundo. Passei da hora. Nunca fui de cumprir horários. Repetindo Mercury, não sou maquinista de trem suiço, sou artista. Achei que cabe em mim essa mistura de humor com resistência. Está de bom tamanho para um sábado à noite. Olho através do vidro da janela. Um negrume encobre tudo. Vem o desejo de vestir azul. Blues. Andei lendo um pouco sobre história universal. Mas quero saber mais sobre naves espaciais. Ainda não conheço a Chapada. Será que vale a pena embarcar nas charadas dos habitantes de lá?
Soube que estreiou um filme de Cacá Diegues. O Grande Circo Místico. Jorge de Lima deveria ser obrigatório em todos os currículos. Poesia, mística e cinema em um palco para os olhos. Pelos faróis de Bruna Linzmeyer. Eu quero o divino!
Neste fiapo de noite, há lugar para a emoção. Preparo-me para dormir tarde. Também roço os pés de gente. Uma desculpa para ser mulher. De açúcar, pão e vinho.

gracia cantanhede

***

Frases
A poesia pinga uma gota de chuva no meu olho seco.

*****

Cigarras, dramáticas, cantam e explodem. O sol testemunha a morte cantada.

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A poesia é um vestido na vitrine. Guarda a sedução do meu primeiro olhar.

*****

Sob o sol a cigarra é casca ôca consumindo-se em seu ritual de morte.

***
Prefiro dizer que não entendo. Na verdade, não quero entender. Uma espera líquida. Preciso de uma cadeira para sentar. Só cansaço!

****

Eu não dou opinião. Só tenho as minhas, para uso pessoal.

*********

O medo que eu sentia era um céu maior que a noite e onde não havia mais que noite e frio. Era um lugar negro que o olhar via.***

O toc toc da chuva é, nem mais, nem menos, um trololó de verão.

A sensação estranha de que o ano acabou e restam poucos dias para realizar os sonhos me atormenta neste fim de tarde, começo de noite.

Pingos de chuva teimam em cair, como se fossem uma cortina de contas, molhando devagar as pedras da calçada por onde caminho em passos lentos.

Mas o tempo é veloz, muito mais rápido do que foi ontem e no século passado.

Aproxima-se o período de festas e nem mesmo comecei a preparar alguns afazeres anotados na agenda, no primeiro semestre.

É sempre assim, a lista de desejos secretos é maior ainda, aquelas guardadas como tesouro dos piratas, sem mapa, porém, para evitar violadores aventureiros, indiscretos penetras do mundo alheio.

Como garrafa de champanhe reservado para um dia especial que valha a pena estourar e guardar a rolha de lembrança, espero a realização do meu secreto e louco sonho.

Todo cuidado é pouco para não desanimar. Evito falar sobre isso para não atrair energia má. Talvez seja verdade e durem mais os desejos silenciados.

A vida poderia ser menos rotineira e mais surpreendente: trabalho, casa, contas a pagar, responsabilidades, nada muda. Por isso tenho medo que me seja confiscado o romantismo. Essa ingênua maneira de levar a vida, isso me rejuvenesce, me faz bem, fico leve, coisas pífias me emocionam, invento amores surreais, sou mesmo um caso perdido.

Quando tocar a campainha do novo ano, irei atender a porta da esperança, quem sabe esteja lá a chance que aguardo com os olhos costurados do ontem, para reabri-los cheios de ousadia.

gracia cantanhede

Novembro é mês de quase fim de ano
Recebe a chuva. Plantas germinam
Pessoas correm mais, esperam menos
Medo de não atingir metas, medo do ano que vem
Novembro é cruel, com sol a pino
Quando dezembro chegar, não haverá mais tempo
Eu me escondo em novembro, é preciso
Eu me calo em novembro, à espera…
Minha sombra caminha atrás de mim
A vida escorre.
É sempre assim.

***************

Tudo poderia ser simples e calmo
Como ler e adormecer com o livro no regaço
Mas as lutas nos tiram o bom humor e a graça
Pessoas ruins nos espreitam e nos abraçam
Seria simples viver longe delas
Afastá-las do nosso caminho
Separá-las
Mas estão aí e se acham donas da verdade
Odeio ter que retrucar, falar com elas
Como se admirasse seus palpites errados
E argumentam, vomitam conhecimentos
E vamos ouvindo a santa ignorância
E suas blasfêmias
Melhor calar e deixar que falem
Um papagaio talvez resolva o problema.

**********

As cores do poema escorrem pela folha, tingem-na de púrpura e de vinho, molham o pergaminho, a hóstia, a linha. Um cristianíssimo calvário, a própria via crucis, me deixa à espera e enquanto tomo café quente que esfria, como o pão que o diabo amassou e jogo lenha na fornalha. Hoje é dia de retomar a vida depois que meu peito andou comprando algumas brigas feias com a alegria e com os festejos e andou apanhando em todas, está machucado, traumas vários, escoriações generalizadas, balas de raspões e punhalada funda no coração que se desmanchou como a folha de papel encharcada de tintas jogadas sem medo de fazer arte feia, sem valor nenhum, apenas um desabafo em forma de múltiplos e tantos punhados de dor.

Penso em escrever mensagem para colocar em uma garrafa e soltá-la no mar, com um resumo dos acontecimentos funestos com os quais nos deparamos. Uma selva de ignorância e ideias absoletas inacreditáveis para quem julgava impossível o que é ruim, piorar. Se a encontrarem daqui muitos anos, ou séculos, poderão abri-la sem susto porque o susto virá quando souberem o que estamos vivendo neste fim de ano pelas bandas de cá. Os naufragos nos ensinaram a ter esperança. O gênio surgiu de uma simples passar de mãos na lâmpada. Pode ser que o milagre aconteça e entremos no túnel do tempo e acordemos em uma nova era de desenvolvimento e de outra gente. E de outra eleição, porque essa, é o pesadelo que não quer passar.

OPINIÃO

*****

“Povo miserável! É culpa minha se em vosso meio vaguei como uma cigana pelos campos e tenho de me esconder e disfarçar, como se eu fosse a pecadora e vós os meus juízes? Vede minha irmã, a Arte! Ela está como eu, caída entre bárbaros e não sabemos mais nos salvar. Aqui nos falta, é verdade, justa causa; mas os juízes diante dos quais encontraremos justiça têm também jurisdição sobre vós, e vos dirão: Tendes antes uma civilização, e então ficareis sabendo vós também o que a filosofia quer e pode.” (Nietzsche, A Filosofia Trágica na Época dos Gregos, §2